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7 de dezembro de 2013 § Deixe um comentário

 

era uma rua coberta de luzes, dessas amarelas, em dia de quermesse. cheirava a brasa, pipoca e cachorro-quente. era dia de coroação, e as crianças corriam de uma lado para o outro com suas asas brancas e vestidos de cetim e filó. como eram lindas as meninas correndo cintilantes na noite. os cabelos cacheados e flores. as mãozinhas cobertas com luvas. da escada da casa defronte eu assistia a tudo maravilhada, vestida como uma menina comum em dia de domingo. meus pais não acreditavam nos festejos de deus. mas quem se importava com deus quando anjos cobertos de luzes brincavam na rua? e desejei ser também anjo. as crianças passavam por mim sem notar meu olhar, todo devoção e desejo. de longe, minha avó me observava. chegou com um vestido de tecido rosa, uma tiara de alumínio e florezinhas brancas. me vesti sobre as roupas que tinha. as asas pendendo para o lado amarradas com arame. corri de encontro às crianças no palco improvisado de madeira a tempo de fingir saber entoar o primeiro canto. e não me importava que eu fosse ali aquele anjo caído, um pequeno querubim.  no dia em que me tornei anjo, meu canto ainda não era triste e eu vestia um tecido rosa e o céu era um chão de estrelas cheirando a brasa, pipoca e cachorro-quente.

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21.8.13

21 de agosto de 2013 § Deixe um comentário

na madrugada

ranger de asas

me faço de morta

voce bate palmas

a sua festa

braços pernas pescoço

nariz boca barriga

nossa carne curtida

na manhã seguinte

corpos estendidos

espanto

suas mãos sujas de sangue

– pernilongo

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7 de março de 2012 § Deixe um comentário

 

Houve um tempo em que a casa era o mundo, e os quartos abrigavam jardins e alguns segredos. Caminhava pelos corredores como quem mergulha um mar muito distante. E quando caía a noite, vislumbrava, não sem algum temor, o céu pelas frestas das janelas. Mas não era uma casa ocupada pelo medo, rendia-lhe o riso solto da criança. E o canto distraído dos pássaros que a despertavam a cada manhã.

29.2.12

29 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

 

diga-me, meu amigo
que o amor
que essa vida
qualquer coisa que se esvai

29.2.12 (três variações para o carnaval)

29 de fevereiro de 2012 § 1 comentário

 

 

I

recorta seu rosto na multidão
toma a alegria como sua
canta
a ilusão serpentina
de não estarmos mais sós

—-

II

recorto
teu rosto
na multidão

—-

III

recorta meu rosto na multidão
toma minha alegria como sua
canta
qualquer coisa que brilhe
qualquer coisa que dance
qualquer coisa que fale de amor

e não importa que na manhã seguinte já não nos lembremos mais

*para a glaura

11.2.12 (contracampo)

11 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

  

No teu olhar

Minha palavra

Deriva

 

* para f.

25.11.11 (convite)

25 de novembro de 2011 § Deixe um comentário

pense a leveza do vôo

faremos em chumbo

pássaros

(*para o fernando, que me deu a imagem)